O lobo pré-histórico (Canis dirus)

Atualmente, não existe nenhum representante do gênero Canis nativo na América do Sul. O lobo-guará pertence ao gênero Chrysocyon, o cachorro-vinagre ao Speothos e o cachorro-do-mato ao Dusocyon.
Isso quer dizer que não há parentes PRÓXIMOS dos lobos nas nossas terras. É interessante notar que os lobos, a espécie que mais se espalhou pelo mundo depois do homem, não tenham conseguido se adaptar em dois continentes: na América do Sul e na África (se bem que os chacais africanos sejam muito mais aparentados com os lobos cinzentos do que qualquer canídeo sul-africano). A Austrália é um caso à parte, pois foi separada das outras porções de terra num período relativamente cedo da formação dos continentes. Se bem que lá há o dingo, um canídeo de introdução recente, que merece um capítulo posterior só para ele.
Mas a América do Sul e a África apresentam continuidade com territórios onde havia lobos e outros animais. O puma (suçuarana, ou leão da montanha), por exemplo, é um felino que se distribui por toda a América, de norte a sul; parece que há ainda inclusive alguns heróicos pumas selvagens perto de São Paulo. A dúvida é: por que os lobos não "desceram" do Norte também?
Ou será que desceram?
Ron Nowak, do U.S. Fish and Wildlife Service, PhD em taxonomia do gênero Canis, comenta que há uns 300.000 anos, enquanto o lobo cinzento (Canis lupus) completava seu périplo pelo hemisfério setentrional (iniciado na América do Norte e desenvolvendo-se plenamente na Eurásia), uma outra população de lobos já extinta, o Canis armbrusteri, parece que começou a se desenvolver também. Há restos desses canídeos extintos na Flórida e no estado de Maryland (EUA).
Não se sabe exatamente como é que se parecia o armbrusteri, nem para onde ele foi. A melhor suposição é de que ele tenha vindo para a América do Sul, ficado isolado e se desenvolvido plenamente até dar origem ao grande Canis dirus ("dire wolf"). O dirus era um lobo.
Há uns 100.000 anos, o dirus teria depois voltado à América do Norte.
Há duas evidências fortes para sustentar essa suposição:
1) restos de animais semelhantes ao dirus são encontrados aqui pela América do Sul até nos pampas argentinos;
2) os restos de dirus encontrados na América do Norte são de uma espécie plenamente desenvolvida, e surgem "repentinamente" (do ponto de vista geológico).
Tudo isso indica que o dirus deve ter sido um "invasor" vindo de outro lugar. Não há vestígios do dirus na Eurásia; portanto, eles não parecem ter seguido o caminho dos lobos cinzentos (C. lupus), cruzando o Estreito de Bering rumo à Ásia durante alguma glaciação.
O dirus parece ter "subido" rumo à América do Norte até o México e sul dos EUA, e se espalhado de costa a costa. A maior concentração de fósseis do dirus está encravada no bairro de La Brea, em Los Angeles (California), em enormes poços de asfalto onde milhares de animais parecem ter encalhado ao longo dos séculos. Grandes animais como mamutes e cavalos, lado a lado com seus predadores (como o dirus e o lobo cinzento) jazem ali, capturados pelas armadilhas viscosas e pegajosas do asfalto que não permitia a nenhum deles escapar.
Algumas populações do dirus continham os maiores membros já existentes dos canídeos. Suas características eram dentes enormes e crânios consideravelmente maiores que os dos lobos cinzentos (C. lupus) atuais. Era um predador altamente adaptado à convivência com tigres-dente-de-sabre, preguiças gigantes, cavalos, camelos e mamutes, que viviam na América do Norte por aquelas épocas. Talvez até hoje estivessem por ali... embora o fim das glaciações do Pleistoceno (10.000 anos atrás) tenha atraído caçadores humanos que competiam pelas presas dos animais. Além disso, algum outro predador mais potente acabou por exterminar os dirus. Qual, não sei realmente...
Nas regiões em que o dirus e o lupus coabitaram, observou-se uma tendência dos lupus a serem menores, um fator interessante que evita a competição ecológica. De fato, os dois tinham diferentes adaptações climáticas.
Resta agora tentarmos recompor a história dos dirus que ficaram aqui na América do Sul. Teriam encontrado algum outro predador mais forte? Seria possível que tivessem sido exterminados por humanos pré-históricos? Homens e lobos se encontraram na América do Sul? Teriam os dirus se extinguido por falta de presas suficientes?
São questões que ficam aguardando mais pesquisas...
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