Que olhos grandes você tem, vovó!
Jay Hutchinson
Os lobos tendem a matar presas debilitadas: animais velhos enfraquecidos, jovens vulneráveis, machos desgastados próximos ao “fim da linha”, feridos ou enfermos. Os biólogos têm estudado esse aspecto da relação predador-presa por 50 anos.
Agora, os pesquisadores descobriram que a população de veados é fortemente influenciada por padrões climáticos, e nem sempre os mais recentes. Um novo fato relaciona a predação de lobos sobre os veados com as condições climáticas de duas gerações anteriores.
Este mais novo esquema da teia da vida foi demostrado recentemente quando pesquisadores de lobos provaram que o assim chamado “Efeito Avó” (em inglês, “Grandmother Effect”), inicialmente descrito para ratos de laboratório, também se verifica em animais selvagens.
A descrição original do Efeito Avó consistiu na transmissão de defeitos físicos para a primeira e segunda geração de descendentes de ratas que foram privadas de uma boa nutrição, em laboratório. Os defeitos que apareceram nas duas gerações seguintes eram tão variados como atrofia corporal e cerebral, respostas motoras e auditivas retardadas, dificuldades no aprendizado na maturidade, e deterioração na formação de anticorpos.
Os efeitos na primeira geração são conhecidos já há algum tempo também em animais selvagens. Nevadas intensas tornam mais difícil encontrar comida para o alce e o veado-de-cauda-branca, e influencia fortemente o que e quanto eles vão comer. Ambos os animais ficam prenhes ao longo do inverno, portanto os pesquisadores usam a profundidade da neve no inverno durante a prenhez para prever tanto a condição nutricional das fêmeas adultas como a nutrição pré-natal dos filhotes, que nascerão em maio e junho (primavera-verão no hemisfério norte). Os biólogos sabem que os alces e veados jovens têm maiores probabilidades de serem devorados pelos lobos se as suas mães foram privadas de uma boa nutrição pelas fortes nevadas durante a prenhez.
Contudo, evidências de que uma má alimentação possa afetar adversamente a segunda geração não estavam estabelecidas até um recente estudo de 12 anos na Floresta Nacional Superior de Minnesota, EUA.
Os cientistas capturaram, pesaram e marcaram com rádio-coleiras fêmeas adultas de veados e os seus filhotes de oito a dez meses de idade, além de determinar a idade dos adultos por seção dentária. Depois, eles monitoraram a sobrevivência dos descendentes nessas florestas onde a predação por lobos é uma causa majoritária de morte natural para os veados. A partir dos registros de profundidade da neve no inverno anterior ao nascimento das jovens fêmeas, os cientistas estabeleceram um índice que relacionava-se inversamente (quanto mais funda a neve, pior a nutrição) com a nutrição das mães das jovens fêmeas prenhes que estavam sendo estudadas, que eram portanto as avós dos filhotes.
De acordo com o esperado, a primeira geração pesava menos e apresentava maior probabilidade de ser morta por lobos, de acordo com a profundidade da neve durante a prenhez da mãe. Mas, mais significativo foi o fato de que também havia um Efeito Avó: a predação sobre os filhotes da geração sobrevivente era mais alta à medida em que fora pior a nutrição das suas avós, não importando a qualidade da nutrição das suas mães.

Por que a primeira e a segunda gerações dos descendentes de ancestrais mal alimentados é mais vulnerável aos lobos? Os cientistas crêem que é razoável supor que a redução de massa corporal e cerebral, déficits em aprendizagem e perturbações na formação de anticorpos desempenhem um papel fundamental. É um paralelo dos defeitos encontrados em ratos de laboratório, e os lobos tiram partido de tais imperfeições nos veados e alces. Sem conhecer o status nutricional da mãe ou da avó de um veado morto por lobos, os biólogos teriam que repensar a prática tradicional de declarar tal veado “saudável”, somente porque não apresenta defeitos óbvios.
Uma vez que o Efeito Avó foi documentado para os veados, tais achados sustentam a necessidade de pesquisas de longo prazo em outros grandes animais. Eles podem também ajudar a explicar porque os ciclos populacionais tanto dos predadores como das suas presas se arrastam em dependência de condições climáticas ou de vegetação.
Jay Hutchinson é escritor e editor da Estação Experimental Centro-Norte do Serviço Florestal dos EUA, em Saint Paul, Minnesota. Ele estudou silvicultura e tem um interesse de toda a vida em história natural e escritos sobre história natural. Este artigo está baseado em: “Effects of Maternal and Grandmaternal Nutrition on Deer Mass and Vulnerability to Wolf Predation”, por L. David Mech, Michael Nelson e Ronald McRoberts, publicado no Journal of Mammology, Vol. 72, No. 1 (1991), pp. 146-51.