Grigio — Dois relatos
(Um lobo? Um cão? O misterioso "anjo da guarda" de Dom Bosco)
1.-
"A vida de Dom Bosco, em pleno século XIX e à
vista de mil testemunhas, tem aventuras incríveis, dignas da lenda dourada.
Os biógrafos hipercríticos as desdenharão. Nós creríamos
mutilar a verdade histórica se não as recolhêssemos. O inverossímil,
o sobrenatural, foi o natural neste homem simples, prosaico, realista.
Como esquecer o Grigio?
Grigio foi um cão, um imponente exemplar dessa raça forte e ágil
dos cães pastores, que apareceu de improviso em uma tarde de 1854 e foi
até 1866 o guardião de Dom Bosco.
Donde vinha, quem era seu dono, quem o alimentava, onde se escondia? Nunca ninguém,
ao longo dos doze anos que o viram rondar o Oratório, pôde averiguá-lo.
Deixemos a palavra com o próprio Dom Bosco. A história é
estranha, e ele a conta com estilo ingênuo, palpitante de veracidade.
‘O cão Grigio (Cinzento) foi tema de muitas conversas
e várias hipóteses. Não poucos de vós o tereis visto
e inclusive acariciado. Deixando de lado as historietas curiosas que se referem
a esse cão, vou expor aqui o que é a pura verdade. Os freqüentes
atentados de que fui vítima me convenceram de que não deveria
andar só, nem na ida nem na volta da cidade de Turim. Naquele tempo,
o manicômio era o último edifício em direção
ao Oratório. O restante era terreno baldio, de bosques e acácias.
‘Em uma noite escura, já tarde, voltava eu sozinho para casa, com
algum receio, quando vejo ao meu lado um cão enorme, que à primeira
vista me assustou; mas como não mostrasse intenções hostis,
e antes me fizesse carinho, como se fosse seu dono, logo nos fizemos amigos
e me acompanhou até o Oratório. O mesmo que ocorreu nessa tarde
aconteceu muitas outras vezes; assim posso afirmar que Grigio me prestou importantes
serviços. Eis aqui alguns:
‘A finais de novembro de 54, em uma tarde chuvosa, vindo da cidade, para
não andar muito sozinho, tomei a rua que vai da Consolata ao Cottolengo.
Num dado lugar observo dois homens, que caminham diante de mim, acelerando ou
diminuindo o passo conforme eu andava. Para evitar o encontro, quis mudar de
calçada, e eles rapidamente fizeram o mesmo. Quis voltar-me, mas não
me deram lugar; ficaram atrás, e no maior silêncio me atiraram
um manto no rosto. Em vão tentei evitar que me envolvessem: um deles
cingiu-me a boca com um pedaço de pano, com o qual me impediu que gritasse.
Nesse momento aparece o Grigio, e, grunhindo como um urso, planta as garras
no rosto de um e o focinho no de outro, de tal modo que têm que atender
ao cão antes que a mim.
‘— Chame o seu cachorro! — gritaram-me, apavorados.
‘— Por certo o chamarei, mas deixai-me livre.
‘— Pronto, chame-o!
‘O Grigio continuava rugindo como um urso ou como um lobo raivoso. Os
outros fugiram, e o Grigio pôs-se ao meu lado e me acompanhou até
o hospital Cottolengo. Voltado a mim do espanto, depois de reconfortar-me com
uma bebida que a caridade daquela casa tem sempre à mão, com boa
escolta fui para casa.
‘Todas as noites, quando ninguém me acompanhava, chegando aos terrenos
baldios via o Grigio surgir por algum lado.
‘Muitas vezes os jovens do Oratório o viram, e em uma delas serviu-nos
de diversão, porque se enfiou no pátio e alguém o quis
espantar e outro pegá-lo.
‘— Não o espanteis! — gritou Giuseppe Buzetti —.
É o cão de Dom Bosco!
‘Todos então disputaram suas carícias e o trouxeram a mim.
‘Estava eu na sala de jantar com alguns clérigos e com minha mãe,
que se assustaram vendo ele entrar.
‘— Não temais — disse-lhes —; é o meu
Grigio. Deixai que se aproxime.
‘Com efeito, dando uma longa volta ao redor da mesa, chegou a mim e eu
o acariciei e ofereci-lhe pão sopa e carne, e nada provou. Nem cheirar
quis.
‘— Que queres, então?
‘Não fez mais que balançar a cauda e sacudir as orelhas.
‘— Come ou bebe ou fica quieto!
‘Apoiou o focinho no meu guardanapo, como se quisesse falar-me ou dar-me
boa noite. Depois, para o pasmo de todos, foi-se. Recordo que nesse dia tinha
vindo tarde, e que um amigo trouxe-me em uma carruagem.
‘A última vez que vi o Grigio foi em 1864. Ia de Murialdo a Moncucco,
até a casa de meu amigo Luis Moglia. O pároco de Buttigliera acompanhou-me
por um trecho, mas a noite me surpreendeu na metade do caminho. "Oh, se
tivesse meu Grigio, disse comigo mesmo, que oportuno seria!"
‘Fui por um prado, para acompanhar as últimas luzes do crepúsculo,
e eis aqui o Grigio, que me acompanha até o final três quilômetros.
Chegado em Moglia, me introduzem por um local afastado, para que meu Grigio
não brigasse com os dois grandes cães da casa. Falamos um bom
tempo dele e fomos depois jantar, deixando-o em um canto da sala.
‘Ao levantar-nos da mesa, disse meu amigo: "É preciso dar
de comer para o Grigio", e levou-lhe pão. Mas ninguém o encontrou.
Todos ficaram surpresos, porque não havia aberto nem a porta, nem a janela,
nem os outros cães o sentiram sair... Essa é a última notícia
que tive do Grigio, tema de tantas pesquisas e discussões. E nunca me
foi possível saber quem fosse seu dono. Apenas sei que aquele animal
foi para mim uma verdadeira providência nos muitos perigos em que me encontrei."
Traduzido de Las aventuras de Don Bosco,
Hugo Wast, AOCRA (Argentina), 1975
pág. 217-228
2.-
"É uma característica da vida dos Santos: eles dispõem de um poder surpreendente sobre o mundo animal, e este se inclina dócil aos seus desejos e aos seus mandos. (...) Assim, na vida de Dom Bosco vê-se emergir da sombra, ao lado do Servo de Deus, a cabeça amável de um cão, a que batizaram com o nome de Grigio (Cinzento) — em piemontês l’gris —, por causa da cor do pelo. Animal de raça toda original, cão desconhecido, sem beleza mas não sem força, cão que recusava abrigo e comida, que dormia quem sabe onde, cão cuja coleira não revelava nenhum dono, firme nas patas e de presas agressivas contra os bandidos que se postavam de emboscada na sombra com o punhal no bolso, mas amável como uma criança para com os meninos do Oratório e de um olhar bondoso e meigo quando olhava Dom Bosco. (...)
Curioso esse animal, cujo procedimento variava conforme as circunstâncias. Uma tarde, em vez de escoltá-lo na forma costumeira, impediu decididamente que Dom Bosco saísse de casa. Estendeu-se na soleira da porta e não houve o que pudesse obrigá-lo a sair. Foi a primeira vez que mostrou os dentes para o seu dono; e viu-se que, se fosse preciso, tê-lo-ia empurrado com toda a força do peito para dentro de casa. Antes de chegar a esse extremo, con-tentava-se de rosnar com os dentes bem cerrados. "Se não quer ouvir a mim, atenda ao menos a esse animal que está demonstrando mais juízo do que você", disse sua mãe Margarida. Dom Bosco atendeu. E foi bom, porque de aí a menos de um quarto de hora chegou um vizinho dizendo que não se afastasse de casa de maneira alguma, porque tinha surpreendido uma conver-sa na qual se falava evidentemente de um atentado que lhe estavam preparando."
Extraída de Dom Bosco, A. Auffray
SDB,
2a. edição, 1955, Livraria Editora Salesiana de SP,
pág. 157 - 161.