"Outro varão, não menos notável, víamos viver em uma pobre choça, onde apenas um podia entrar de cada vez. Contava-se que uma loba costumava ficar perto dele durante as suas refeições, e que tal criatura nunca deixava de surgir à hora designada, ou de esperar do lado de fora até que ele lhe oferecesse qualquer pedaço de pão que sobrasse da sua parca ceia. E então ela lambia-lhe as mãos e, como se sua tarefa estivesse terminada e a obrigação do conforto da sua presença cumprida, ia embora.
Mas aconteceu uma vez que o santo homem havia saído com um irmão
que viera vê-lo, para colocá-lo no seu caminho, e esteve por longo
tempo ausente, não retornando à sua casa até o anoitecer.
Enquanto isso, o animal viera à hora costumeira da refeição.
Ela sentiu que seu amigo e protetor estava ausente, e entrou na sua cela vazia,
curiosa por descobrir onde seu habitante poderia estar. Por acaso, uma cesta
de palha com cinco pães estava pendurada ao seu alcance. Ela arriscou-se
a tomar um deles, e então, perpetrado o crime, desapareceu.
O eremita entrou, e viu sua cesta rasgada. Ele percebeu o
prejuízo que o seu estoque doméstico sofrera, e próximo
ao umbral da porta ele reconheceu as migalhas onde alguém estivera comendo
pão. Ele não teve muitas dúvidas sobre quem seria a pessoa
do ladrão. Então, como passassem os dias e a criatura não
retornasse — por demasiado consciente da sua audácia, para voltar
onde fizera mal e simular inocência —, o eremita considerou penosamente
com seu coração que havia perdido a companhia do seu animal de
estimação. Finalmente, quando o sétimo dia passou, suas
preces foram respondidas: lá estava ela, enquanto ele se sentava para
sua refeição, como antes. Mas era fácil perceber o embaraço
da penitente: ela permanecia no lugar, não ousando se aproximar, seus
olhos fixos no chão com profunda vergonha, e claramente implorando perdão.
Compadecido da sua confusão, o eremita chamou-a a se aproximar, e acariciou
a cabeça triste, e finalmente reanimou sua penitente com dois pães
ao invés de um. E ela, com o perdão obtido e sua pena terminada,
reassumiu seu costumeiro ofício. Considere, lhe rogo, neste exemplo,
o poder de Cristo, com quem são sábios todos os brutos, e gentis
todas as criaturas selvagens."
Sulpicius Severus, Dialogus, I, c. 13, 14
(Corp. Script. Eccl. Lat.)
Traduzido de: Beasts and Saints, Helen Waddell,
William B. Eerdmans Publishing Company,
1995 - página 6-7