(Caso queira usar este material, sinta-se à vontade, mas por favor conceda-me os créditos.)
Uma sub-espécie do lobo ocorre na Ásia, desde Israel até a Índia, denominada lobo indiano, ou lobo iraniano ou ainda lobo asiático (Canis lupus pallipes). Ele é um dos dois tipos de lobo que habitam o sub-continente indiano (o outro é o Canis lupus chanco, ou lobo tibetano, que também no Tibete, China, Manchúria e Mongólia. Não farei referência a esta sub-espécie neste ensaio). O pallipes é menor que os lobos europeus (pesa 18-22 kg), lembrando um pouco um chacal grande. Seu pelo é mais curto, mais amarronzado, e desenvolvem uma curta camada de sub-pelos, como seus parentes do norte, apenas no inverno.
Os lobos que predam gado doméstico não vivem em alcatéias muito numerosas (quatro é um número típico), em parte talvez como resposta a um ambiente de pouca disponibilidade de recursos e maior facilidade de abate, como veremos a seguir. Já os que predam animais silvestres usualmente vivem em grupos de 6 a 14 indivíduos. Alimentam-se naturalmente desde grande mamíferos, como o antílope e a gazela chinkara, até lebres e pássaros. O lobo é o principal predador do antílope (Antelope cervicapra). No Parque Nacional de Velavadar, observou-se que cada lobo mata entre 35 e 39 antílopes por ano, a cada 3,5 dias, ingerindo em média 4,62 kg por animal morto. O lobo é o principal agente de controle natural da população desses ungulados, que poderiam de outra forma prejudicar as colheitas.
Ao contrário dos pallipes iraniano, o indiano uiva freqüentemente, podendo algumas vezes ser localizado através da resposta a uivos simulados.
O mapa abaixo apresenta a distribuição do lobo na Índia. Os principais estados onde se encotram é o Rajastão, Gujarat, Uttar Pradesh, Bihar, Karnataka e Andhra Pradesh, em diferentes ecossistemas (mais montanhoso ao norte e mais plano no centro-sul). O lobo na Índia não habita tipicamente as florestas, mas sim áreas abertas e desérticas, o que facilita sua interação com humanos. De fato, a maior parte da população de lobos na Índia deve viver fora de reservas, alimentando-se principalmente de gado doméstico de pequeno porte (ovelhas, cabras e bodes).

No Rajastão é chamado de "charinaar", "varagdo" e "nyari". Em Gujarat, é conhecido por "bhagad". Gujarat é a sede do Parque Nacional de Velavadar, onde vive uma alcatéia bastante estudada de lobos indianos.
Reproduzem-se durante o inverno, como os outros canídeos, e os filhotes nascem entre Dezembro e Janeiro, sendo que o número de filhotes depende diretamente da disponibilidade de presa no local (ou seja, o status da presa determina a ecologia do predador, o que dá bastante no que pensar!). Os pais mudam-se várias vezes de toca com os filhotes, para protegê-los enquanto ainda são indefesos, de modo semelhante ao do lobo-guará.
Pelo que se sabe, há hoje aproximadamente 1500 lobos pallipes na Índia, em zonas áridas ou estéreis, ilhados em áreas de cultivo e pastoreio. Sua população tem diminuído nos últimos anos (drasticamente desde o início do século), quer pela extensão da lavoura e agropecuária, que elimina as presas naturais dos lobos, quer ainda pela ira com que é visto pelos camponeses, dado que chega a atacar gado bovino ou ovino e, em alguns casos, até humanos. Mesmo sendo hoje sua morte e comércio ilegais na Índia, os camponeses não hesitam em patrulhar as áreas de ocorrência de lobos, especialmente próximo da época das ninhadas, para abatê-los ou envenená-los, e chegam a contratar shikaris, caçadores profissionais, para matá-los. De fato, o próprio governo estimulou a erradicação dos lobos através de recompensas por animal abatido, como ocorreu nos EUA nas primeiras décadas do século 20.
Isso porque, além do prejuízo econômico que representa para os pastores pobres a perda de animais dos seus parcos rebanhos, acontece que o lobo indiano pode apresentar um padrão de comportamento anormal, em relação ao que se conhece dos lobos em outros continentes, que é a captura e morte de crianças.
Há inúmeros testemunhos visuais, devidamente analisados a posteriori, que mostram que em pequenos vilarejos em vários estados da Índia, crianças de ambos os sexos, normalmente desacompanhadas, são capturadas por algum lobo à espreita nos arbustos, arrastadas até a orla da área descoberta, e carregadas mata adentro, eventualmente com o auxílio de um segundo ou terceiro lobo. Usualmente as crianças são capturadas à noite, enquanto dormem (muitas vezes ao relento, no verão, junto com seus pais, por causa do calor), mas em alguns casos os lobos não hesitam em surgir em plena luz do dia e capturar as crianças enquanto brincam. Esse problema foi tão sério que, no começo deste século, a recompensa pela morte de um lobo era maior que a de um tigre.
Dentes, tipo e tamanho da mordida (nos sobreviventes e nos ossos dos cadáveres), tipo de fezes e pegadas indicam que um lobo realmente foi o raptor, embora existam outros predadores espalhados pelos estados indianos: hienas, leopardos, tigres, ursos, chacais e cães selvagens. (Minha dúvida particular: não se poderiam atribuir esses ataques também a híbridos cão-lobo? Isso poderia explicar essa "familiaridade" que os raptores parecem ter com humanos).
Em Shahi (1982) existem algumas descrições de ataques verdadeiramente desagradáveis, que não pretendo incluir aqui. De qualquer forma, abaixo seguem algumas estatísticas:
- Estado de Karnataka: Abril a Outubro de 1983: 14 crianças (7 meninos e 7 meninas) entre 9 meses e 6 anos foram atacadas, com 9 mortes, no vilarejo de Pavagada. Mortos 14 lobos na "Operação Pavagada" (6 fêmeas e 8 machos). Curiosidade: constatou-se que as presas naturais dos lobos durante essa época não foram escassas [Report of the Karnataka Forest Department].
- Estado de Uttar Pradesh: Março a Outubro de 1996: em média, um ataque a cada três dias e uma criança morta a cada cinco dias (durante os 25 dias de estadia dos autores entre Julho e Outubro, três mortes e três ataques putativos). Total: 76 crianças, entre 4 meses e 9 anos. Neste estudo, foi importante a determinação da natureza do raptor, pois membros da comunidade acreditavam também na ação de algum Manai ("ser humano mal"), entidade maligna dotada de poderes sobrenaturais. Forasteiros, inclusive pesquisadores e guardas florestais, podiam ser linchados pela população sob a acusação de serem Manai. [Jhala e Sharma, 1997].
- Estado de Hazaribagh: 5 alcatéias foram responsáveis por 80 ataques a crianças entre Abril de 1993 a Abril de 1995, sendo apenas 20 vítimas resgatadas. As crianças foram capturadas principalmente entre Março e Agosto entre as 17:00 e as 19:00h. Meninas foram mais atacadas que meninos (58%), e 89% dessas crianças tinham entre 3 e 11 anos [Rajpurohit, 1999].
Isso sem mencionar as incursões que os lobos eventualmente fazem a cemitérios, onde procuram se alimentar de cadáveres mal enterrados. Na China já se observou comportamento semelhante.
Por que ocorrem esses ataques? Talvez o lobo indiano tenha sido pressionado a uma interação maior com os humanos, tanto pela diminuição das áreas silvestres como pela maior facilidade que representa o ataque aos rebanhos (ovelhas são menos ariscas e rápidas do que, por exemplo, os antílopes selvagens). Embora sempre existam exageros, parece cientificamente certo de que há alguns lobos que desenvolveram esse hábito de atacar humanos, especialmente crianças pequenas (mais indefesas), que normalmente vivem desacompanhadas no ermo enquanto os pais estão trabalhando.
Mesmo na Índia, porém, os lobos raptores de crianças são a exceção e não a regra. Existem muitos grupos de alcatéias dos quais não se tem registro de ataques a humanos há anos, em locais onde a população local coexiste bem com esses e outros grandes carnívoros. O governo indiano paga às famílias uma indenização pela perda de filhos para grandes predadores.
Isso também não significa que todos os lobos apresentarão esse comportamento, mesmo quando pressionados pela escassez de recursos. Como nos outros continentes, também já se observou que o lobo indiano é tímido e evita a todo custo o contato com humanos. Já se sugeriu que se matasse apenas o lobo da alcatéia que apresente esse comportamento, protegendo os outros animais de um extermínio. Vários autores sugeriram a criação de santuários ecológicos para antílopes e lobos, afastados do contato humano.
Bibliografia consultada para esta página:
Gostaria de agradecer a atenção e generosidade dos Dr’s. Kishan Singh Rajpurohit e Yadvendradev Jhala, do
pelos artigos cedidos.